História de Vila Nova de Gaia :: No virar do século
O município de Vila Nova de Gaia fica situado na margem Sul do rio Douro, junto da sua foz. Ocupa uma área aproximada de 165 Km2 e tem actualmente cerca de 250.000 habitantes. O concelho é composto por 24 freguesias, ora voltadas para as praias do Litoral Atlântico - Canidelo, Madalena, Valadares, Gulpilhares, Arcozelo e S. Félix da Marinha - ora alinhadas ao longo do rio - Afurada, Sta Marinha, Oliveira do Douro, Avintes Olival, Crestuma e Lever - ou galgando os suaves relevos do interior - Mafamude, Vilar de Andorinho, Vilar do Paraíso, Canelas, Perosinho, Pedroso, Serzedo, Grijó, Sermonde, Seixezelo e Sandim. O seu território é circundado pelos municípios de Espinho e Sta Maria da Feira a Sul, e pelos de Gondomar e Porto a Norte, na margem do rio. Dos relevos interiores - Monte Grande, Serra de Negrelos, Monte Murado, Seixo Alvo - correm para o rio ou para o mar alguns ribeiros, sendo os de maior caudal os rios Uima e Febro que desaguam no rio Douro. O solo é composto por vários tipos de granito, rochas do complexo xisto-grauváquio e areias no litoral e foz do Douro. Por entre espaços florestais vislumbram-se terrenos agricolas com algum grau de fertilidade nas áreas das bacias fluviais. Para além do granito e do xisto usados como materiais de construção, o subsolo fornece também argilas que são usadas na industria cerâmica. O mar cria algumas variedades de peixe que são capturados pelos pescadores da Afurada e da Aguda. Em locais pouco povoados é possivel encontrar ainda residuos de floresta indígena que abrigam algumas espécies selvagens de pequenos mamiferos e aves.O restante território sofreu alteração nas condições ambientais desde a Idade Média.
A configuração do município de Gaia remonta ao séc. XIII, mantendo quase inalterada a sua estrutura, exceptuando a freguesia de Guetim, que no inicio do Séc. XX passou para o concelho de Espinho, com a freguesia de Lever, que saíu do concelho da Feira. A principal característica de Vila Nova de Gaia, desde tempos remotos, é o facto de ser a antecâmara do litoral-norte do país, para quem vem do sul ou do sudoeste, por via terrestre. Por este motivo, o concelho é sulcado por estradas prependiculares ao rio Douro, que o atravessam através de seis pontes: Arrábida, Luís I, D. Maria Pia, S. João, Barragem de Crestuma Lever e Freixo. São os sucedâneos modernos da estrada romana que ligava Olissipo a Bracara.
Outra característica é o facto de ser, desde a Idade Média, um entreposto vinícola, em especial do Vinho Porto, a partir do séc. XVIII. Sem matérias-primas de valor no subsolo, sem grandes áreas agrícolas, perdida a importância portuária do cais da Beira-rio e o Entreposto exclusivo do Vinho do Porto e com a indústria que vive situações conjunturais, Vila Nova de Gaia tem vindo a transformar-se numa cidade e município onde predominam bairros-dormitórios e algumas zonas de lazer, começando a apostar num Turismo para consumo doméstico.
O povoamento em Vila Nova de Gaia está documentado desde o Paleolítico. Foram encontrados instrumentos de pedra do período achaulense (1000 000 a.C.) no lugar do Cêrro, freguesia da Madalena, existindo também artefactos da época neolítica em Pedroso e no Litoral. A cultura megalítica está documentada por referências a dezenas de mamoas, tendo já sido estudada a de Gestosa, em Sandim. Encontram-se no entanto, distribuidas por todo o território desde o litoral até às elevações centrais do Concelho. Do período do Bronze existem cerâmicas originárias da Necrópole do Alto da Vela em Gulpilhares, que foi usada novamente como cemitério no período final da romanização, nos séc. IV e V d.C.. Existem também numerosos Castros, praticamente um por cada freguesia, que comprovam um regular povoamento na Idade do Ferro. A sua população será, no entanto, intensamente romanizada, sobretudo a partir do séc. I d.C..
Com a construção da via romana e sendo um importante ponto de passagem para o território dos Bracaros e dos Calaicos, o povoamento ribeirinho da margem esquerda do Douro, junto à foz, adquiriu uma enorme importância. No cerro situado na margem esquerda do Douro, e próximo da sua foz, existiu em épocas remotas, um Castro, onde mais tarde os romanos estabeleceram a povoação de Cale e, onde no princípio da era cristã, levantaram um grande e forte castelo, conhecido por Castelo de Gaia ou Castelo do Rei Ramiro. Com localização comprovada, a sua existência foi relatada na "Crónica do Rei D. Afonso Henriques" de Fernão Lopes, e conta-se também, no "Catálogo dos Bispos do Porto" que o Castelo teria sido fundado no ano de 145 a.C., tendo o seu nome origem no fundador Caio Leliu, pretor romano que - depois de vencer Viriato - fundou a povoação.
Existem, no entanto, outras versões da sua origem. Assim, na versão do cronista Dr. João de Barros, o Castelo foi edificado por Caio Júlio Cesar durante a ocupação romana, resultado da existência de umas pedras cuja inscrição no dá o nome de um miles da X Legião Gemina, a Vitoriosa, e deverá ser do tempo de Claudio. Crêem alguns que, junto do Castelo de Gaia chegou a viver um rei Leão, porventura o da lenda. Esta afirmação tem como base a existência da rua de Rei Ramiro e Fonte do mesmo nome, além de um solar com torre (Casa de Campo Bela), também conhecido entre as gentes por Paço de Rei Ramiro. Não existe, no entanto, nenhum documento que comprove esta tese. Terá sido atribuido este nome talvez em honra ao rei da lenda, que nos é transmitida oralmente ao longo dos tempos. Quanto à casa, nada garante a relação entre os dois termos, levando a crer que lhe terá sido atribuido tal retiro pela fantasia popular, até porque na lenda é mencionada a fuga do rei Cristão para a Galiza.
Aquando das invasões dos suevos, visigodos, árabes e cristãos, do séc. V ao séc. X, temos sempre Portucale, mais tarde denominada castrum antiquum para a distinguir da povoação que entretanto ocupava a margem direita, o embrião da actual cidade do Porto. É em Portucale que, várias vezes se decidiu o futuro do território, repartido entre os suevos e visigodos. Segundo a tradição, é na povoação meridional que será edificada a primeira sé. As escavações arqueológicas já realizadas vieram confirmar que esta povoação era suficientemente rica para, no séc. VI, importar cerâmica e vidros da Àsia Menor, norte de Àfrica e da Gália merovíngia. O domínio visigodo termina aquando das invasões árabes e o actual território de Vila Nova de Gaia será, muitas vezes, a fronteira onde os mulçulmanos permanecem, o que será relembrado nos séculos seguintes na Lenda de Gaia, inserida, nos séc. XIII e XIV, nos Livros de Linhagens.
Em 997, o rei Almançor esperava neste território a chegada da sua frota, antes de partir para atacar S. Tiago de Compostela. A convivência entre cristãos e árabes não foi só de confrontos. A população convertida ao cristianismo criou lugares de paz e desenvolvimento por todo o território, sob a forma de mosteiros de regra visigóticos e depois beneditina. É o caso dos Mosteiros de Grijó, de Santa Marinha, de Pedroso, de Vilar de Febros, de Sermonde, de Crestuma e de Sandim, dos quais só chegaram até aos nossos dias os de Grijó, de Pedroso e de Sandim. O primeiro, foi fundado em 922, por uma importante familia local, no mesmo ano em que Ordonho II das Astúrias faz uma importante doação ao mosteiro de Crestuma. Neste mesmo documento, que se conhece por cópia incompleta do séc XII, menciona-se a Vila de Portugal situada entre Mafamude e Coimbrões, embrião da futura Vila Nova dionisia, concerteza uma alcaria cristã junto da arabizada povoação de Gaia.
Após a reconquista de Portucale por Vimara Peres, em 868, o território do futuro Julgado de Gaia, pertenceu, no domínio eclesiástico, à diocese de Coimbra e, no civil, aos seus governadores. Só com a reimplantação da sé portucalense na margem direita do Douro e o consequente desenvolvimento do seu burgo a partir do séc. XII, os seus bispos vão reivindicar a incorporação da Terra de Santa Maria naquela diocese. Esta região do Entre-Douro-e-Vouga, fazia parte do Condado de Coimbra, verdadeira charneira entre o Norte cristão e o sul mulçulmano, onde convergiam os interesses dos ricos-homens da Maia e de Ribadouro, com os senhores moçárabes locais e os cavaleiros mouriscos de Coimbra, pressionados por três forças estranhas: os fidalgos galegos, que dominavam o Entre-Douro-e-Minho; os leoneses, que pretendiam dominar os vales do Douro e do Côa e os árabes sempre presentes nos limites de Coimbra e de Montemor.
A partir de uma pequena vila situada junto da travessia litoral do Douro, nasceu a independência do condado portucalense, concretizado por D. Afonso Henriques e no qual a terra de Santa Maria teve um papel fundamental.
A toponimía de Portugal estendeu-se, por via eclesiástica e notarial, às duas margens, acabando por designar a região entre os rios Minho e Mondego, balisada pela proeminência arquiepiscopal de Braga e pelo urbanismo da antiga Emínio que, pelas mesmas razões de proeminência religiosa e administrativa sobre a região de influência, toma o nome da diocese cristã que nascera no período visigótico na indefesa Conimbriga.
Não é de admirar que, no período pré-nacional e no ínicio da nacionalidade, a familia real tenha concebido amplos benefícios e terras aos mosteiros locais e seus donatários. Soeiro Fromarigues, da família patronal do mosteiro de Grijó, acompanha o Conde D. Henrique à Terra Santa. D. Teresa e D. Afonso Henriques coutam várias propriedades em Brito, Grijó, Avintes, Pedrosos e Tarouquela, tornando-as imunes à interferência senhorial e episcopal, ainda que os bispos portucalenses tenham continuado a reinvindicar os seus direitos sobre a parte meridional da diocese até ao rio Antuã, ou seja, a area de influência da villa de Portugal, o que só virão a conseguir no séc. XIII. Estes direitos pretendiam-nos também no fôro temporal os burgueses de Gaia, em representação do poder régio, contra o poder senhorial dos bispos, o que leva D. Afonso III a conceder à antiga povoação Cale, conhecida e designada na corte, então em Coimbra, por velho burgo do Porto, um Foral no ano de 1255. Ao redor do seu castelo abriram-se caminhos, ruelas, vielas, becos e carreiros, todos íngremes e estreitos, dos quais ainda existem alguns. Aqui, foi estabelecido um cais, que era o porto e, por isso, o principal ponto de convergência dos passageiros. A Vila de Gaia, o antigo Portucale Castrum, era agora terra reguenga e os seus habitantes, na maioria pescadores e mercadores, têm o invejável privilégio de não pagarem portagem em nenhuma terra do reino.
Do foral concedido pelo rei D. Afonso III podemos destacar o seguinte:
"Dou-vos e concedo-vos, pelos seus limites, todo o meu regalengo de Gaia, para vossa herdade, e para sempre, conforme está limitado pelos termos de Coimbrões, do Candal e Alumiara até ao rio Douro, pelo casal que foi sé portucalense, que é em Gaia, e pelo de São Martinho, se o puder haver.
"Dou-vos e concedo-vos a vós, povos que morais no meu burgo velho do Porto, todas as minhas herdades que tinheis no mesmo burgo.
"… mando que os pescadores da minha vila de Gaia pesquem nas minhas abargas da Furada e do Arino.
"E, se por acaso, o que Deus não permita, algum dos meus sucessores ou outrem quiser ir contra este feito, não lhe seja lícito e seja maldito.
"E com Judas, traidor, seja condenado ao Inferno e incorra na maldição de Deus Omnipotente, da Virgem Maria, minha e de todos os meus progenitóres."
Face a esta protecção é provável que o número de habitantes aumentasse e voltasse a ser repovoada a povoação mais baixa, junto à margem do rio onde a travessia era mais fácil e havia um imenso ancoradouro, então denominada Burgo Velho do Porto. D. Dinis concedeu-lhes o Foral em 1288, de que consta: "Damos e concedemos a vós, povos daquele nosso lugar, que costumavam chamar "burgo velho", ao qual impomos de novo o nome de Vila Nova de Rei, por foro ta qual é.". Rapidamente esta povoação vai-se tornar um importante estaleiro e entreposto comercial. Estes dois concelhos vizinhos, o de Gaia a poente e o de Vila Nova a nascente, separados pela ribeira de Santo Antão, eram perfeitamente distintos, cada qual com a sua administração e os seus eleitos, mas desde sempre apareceram unidos na defesa dos seus interesses.
Em 1270, o abade do Mosteiro de Pedroso concede aos moradores do Couto uma Carta foraleira e, em 1363, D. Pedro cria o concelho de Canidelo, de efémera duração, em homenagem à memória de D. Inês que tinha sido usufrutuária dos rendimentos da igreja daquela aldeia; e organiza uma rebelião apoderando-se das armas do Castelo. Por carta régia em 1302 é criada a feira anual de Gaia, com a duração de um mês, com ínicio quinze dias antes do S. Martinho. Entretanto, em 1322, o Castelo tinha sido tomado por D. Afonso, filho de D. Dinis. Nas cortes de 1331, são tratados vários problemas entre vizinhos dos Conçelhos de Gaya e de Vila nova e os da cidade do Porto, sobretudo os relacionados com o controle dos caminhos, das portagens e dos fretes marítimos e fluviais.
Com os acontecimento dinásticos de 1383, no período das lutas com Espanha resutantes da sucessão de D. Fernando, quando D. João assumiu o cargo de Defensor do Reino, os Portuenses assaltaram o Castelo deixando-o em ruínas, não obstante o seu alcaide, que estava ausente, ser um dos homens de armas do Mestre de Avis; os concelhos de Gaia e Vila Nova tomaram parcialmente integrados na administração da cidade do Porto, o que igualmente aconteceu com os restantes concelhos circundantes, como paga dos serviços e dos gastos feitos com a frota que foi descercar Lisboa dos castelhanos. Assim estas povoações perderam temporariamente a sua autonomia municipal. O poder senhorial em Gaia foi, depois, concedido por D. João I ao jovem alferes da Ala dos Namorados na batalha de Aljubarrota, Alvaro Anes de Cernache, que jaz sepultado na igreja do Mosteiro de Copus Christi, fundado no século XIV e ampliado no séc. XVII, onde igualmente foi inumada D. Leonor Alvim, a esposa do Condestável D. Nuno Alvares Pereira (progenitores pelo lado feminino da Casa de Bragança). Os descendentes do primeiro Senhor de Gaia-a-Grande ainda habitam hoje na sua Casa de Campo Bello, situada no sopé nascente do lugar do Castelo de Gaia. Vila Nova, também designada por Gaia-a-Pequena ou concelho de baixo, foi doada a vários fidalgos de que se destacam os Leites-Pereiras que tinham uma ligação com as famílias mais poderosas da Terra de Santa Maria.
O período de sujeição à cidade do Porto, veio ser confirmada no foral de 1501, de D. Manuel I, que menciona na sua sentença: "…os moradores da dita aldeia de Gaia viessem responder à cidade do Porto como aldeões. E, daqui em diante, a dita aldeia fosse havida por termo da cidade. E condenamos os ditos réus - os gaienses - que deixem o selo que têm e não mais usem dele e o entreguem à dita cidade.". Este monarca atribuiu, em 1518, um novo Foral a Vila Nova e Gaia, em que evidencia a pujança agrícola e o povoamento das freguesias possuidoras de grandes propriedades e rendimentos, como o caso do Mosteiro de Grijó de onde, no séc. XVI, se separam alguns cónegos que preferem viver perto da cidade do Porto, mandando para tal construir o convento de S. Salvador da Serra, que no séc. XVII, por influência do dominio filipino, se viria a chamar Serra do Pilar e que ainda hoje domina o perfil da cidade de Gaia com a sua igreja maneirista. Aquando da entrada no Porto, em 1832, de D. Pedro, foram tomadas as posições dos dois pontos mais altos de Gaia, aguardando aí os miguelistas - a Serra do Pilar e o lugar do Castelo. Iniciou-se a fortificação destes dois redutos para defesa da cidade, sendo a posição do Castelo logo abandonada visto que, era de flanqueamento fácil e insustentável. Em face disso, os liberais, tomaram posição apenas na Serra do Pilar, e quando os miguelistas chegaram foram duramente castigados pelas baterias da Serra. As tropas de D. Miguel em resposta, fustigaram o reduto do Castelo, arrasando-o. No fim da batalha, reconstruiram-se os prédios danificados excepto o Castelo, pois o seu terreno foi vendido, existindo hoje nas proximidades do local um asílio para cegos, na rua do Castelo.
A partir da segunda metade do séc. XVIII, Vila Nova de Gaia, era uma terra de homens de mar e de artífices, assim como mercadores e homens de negócio, e foi por esta altura que começaram aqui a intalar--se os ingleses, comprando casas e armazéns destinados às operações de embarque dos vinhos do Douro, com o nome de Vinho do Porto, já que era exportado pela alfândega dessa cidade. Este factor económico dominava completamente a região, de tal forma que, o Marquês de Pombal, através das suas reformas, modificou o urbanismo de Gaia e Vila Nova ao instalar a Real Companhia dos Vinhos do Alto Douro em Vila Nova. A partir de 1777, os armazéns de Vinho do Porto situaram--se em Gaia e Vila Nova onde estavam sujeitos aos impostos a favor do Bispo do Porto, que as cortes de 1820 iriam abolir.
Tendo já servido para apoiar as tropas de D. António Prior do Crato e, para expulsar a segunda invasão francesa em 1809, o convento da Serra do Pilar tornou a ser a fortaleza onde se decidiria o destino do país. Foi durante as lutas liberais que ele se tornou um símbolo da resistência dos soldados de D. Pedro IV que, defendiam daí a cidade do Porto e as convicções políticas dos gaienses. Sob o comando do então capitão Torres, defendem heroicamente a cidade durante o cerco de 14 de Outubro de 1832. Como não conseguiram desalojar os liberais aquartelados naquele antigo convento, os absolutistas retiraram, deixando os armazéns de Vinho do Porto a arder e transformando Vila Nova de Gaia num inferno de chamas. Como sequência destes acontecimentos, Vila Nova e Gaia unem-se e adquirem autonomia administrativa a 20 de Junho de 1824, dando origem ao Município de Vila Nova de Gaia.
Nasceu, então, uma onda de desenvolvimento em que as pontes sobre o Rio Douro e a via férrea tiveram um papel preponderante. Assim, na Vila e arredores surgem fábricas de cerâmica, metalurgia, tanoaria, cortiça e vidro, um aumento no número de armazéns de vinho, que ocupavam por vezes antigas instalações conventuais, como é o caso do convento de Vale da Piedade. Com esta concentração comercial, esta vila é, no final do século passado, lugar propício para a agitação provocada pelo ideal republicano e democrático.
Em 1841 surge a primeira tentativa dos gaienses verem a sua vila promovida a cidade. Os membros da Câmara Municípal, enviaram então uma representação à Rainha D. Maria II, pedindo-lhe a permissão para a elevação de Vila Nova deGaia à categoria de cidade com a divisa "Muito nobre, sempre leal, e antiquíssima cidade de Gaia" e de um brasão. Como não obtiveram os resultados esperados com a primeria petição, os gaienses logo apresentaram novo pedido, mas agora somente para um brasão de armas, no que foram bem sucedidos. É, também, nesse ano que surge um loja maçónica, formada pelos exportadores de Vinho do Porto, à qual se sucedem os clubes, grémios e sindicatos, que têem como resultado a abertura de uma escola industrial.
Em 1850, a Câmara dirigiu ao poder Central uma representação que obteve um brasão, encimado por uma coroa mural de cinco torres, e o conjunto era constituído por um escudo partido que, ao centro, continha um escudete com as quinas, envolvido pela legenda MEA VILLA DE GAYA, retirada do foral de D. Afonso III. À direita, em campo de ouro, figurava um castelo antigo, coroado pela insígnia das legiões romanas, tendo ao fundo representado o Rio Douro. À esquerda, em campo de púrpura, via-se uma fortaleza com zimbério, que representava a Serra do Pilar, alusiva aos feitos dos polacos da serra, mostrando no topo a bandeira constitucional. Sobre a coroa mural, estava postado um guerreiro a tocar trombeta, símbolo do rei Ramiro e do assalto das suas tropas ao Castelo, a fim de libertar a sua rainha. Na fita branca que cicundava o fundo do brasão, aparecia uma divisa em letras azuis - nome e renome, cuja explicação apresentada na proposta era que dizia respeito à origem do nome de Portugal e ao valor da terra. Este brasão esteve em uso até 1934, sendo alterado nessa data visto que não obedecia aos cânones heráldicos.
Em 10 de Setembro de 1934, a portaria publicada na 1ª série do Diário da República, pelo então ministro António Mata Gomes Pereira, determinava que a nova constituição heráldica das armas, bandeira e selo do Município de Gaia, e tendo em consideração a associação dos arqueólogos portugueses que, este seria em prata, com uma torre torreada de negro, aberta e iluminada do ampo, rematada de um homem sainte, vestindo de vermelho e tocando uma buzina de ouro. A torre é acompanhada por dois cachos de uvas de oiro, folhados e troncados de verde, com chefe, dois escudetes das armas antigas de Portugal; em contra-chefe, duas faixas ondadas de azul, coroa mural de quatro torres de prata; a legenda Vila Nova de Gaia a preto; a bandeira esquartelada de amarelo e negro, cordões e borlas de oiro e negro, haste e lança doirados; o selo circular, tendo ao centro as peças de armas sem indicação de cores; em volta, dentro do circulo, a legenda atrás indicada.
Com a elevação a cidade de Vila Nova de Gaia, as armas e bandeira sofrem novas alterações, referidas na circular da Direcção Geral da Administração Política e Civil, de 14 de Abril de 1930, no ponto 6° da alínea a, "as armas serão encimadas por uma coroa mural prateada, e de cinco torres para as cidades, de quatro para as vilas, e de três para as freguesias."; e ainda na alínea d, "as bandeiras das cidades serão quarteadas de oito peças de duas cores alternadas, salvo razão excepcional de natureza histórica; a das vilas ou freguesias serão esquarteladas de duas cores, ou serão de uma só cor; conforme as circustâncias o determinem". A meta que se propuseram alcançar em 1841, só seria atingida em 1984, altura em que o município se preparava para comemorar os 150 anos do seu estabelecimento como Município Moderno.
Vila Nova de Gaia foi, desde sempre, berço e morada de grandes nomes das artes e letras deste país, como Artur Napoleão, grande pianista e compositor; Adriano de Paiva, inventor do príncipio da televisão e lente, da Academía Politécnica do Porto; Maximiano Lemos,higienista, enciclopedista e professor na escola Médico-Cirúrgica do Porto; Belchior da Fonseca e António da Costa Bernardes, pioneiros da aeronáutica, para além de vários escultores que um peculiar conjunto de circunstâncias identifica como a Escola de Gaia e de entre os quais se destacaram Soares dos Reis, Teixeira Lopes e Diogo de Macedo; e outros tantos pintores e escritores entre os quais Almeida Garrett que, apesar de ter nascido no Porto, vi-veu em Gaia durante a sua infância.
Aos poucos, a intensa vida comercial e industrial da vila começou a definhar, mercê de um conjunto de adversidades que foram surgindo com o tempo, entre as quais a perigosa e dificil navegabilidade da barra do Douro e a construção do Porto de Leixões, em Matosinhos, que transfere e dificulta o escoamento dos produtos de Gaia para o exterior, leva ao encerramento das fábricas de cerâmica, e à transferência das outras industrias como, o vidro e a cortiça, para outros concelhos situados mais perto do Porto de Aveiro. Fica o Vinho do Porto com o seu Entreposto único e exclusivo, que a legislação recente acabou de destruir. Mas Vila Nova de Gaia procura outras vias de progresso, nomeadamente na indústria automóvel e na construção civil.
Nestes últimos anos vem-se tornando cada vez mais um caos urbanístico de díficil resolução; se por um lado o crescimento da cidade é necessário, também os acessos que possibilitem uma rápida deslocação dos seus utentes é um tema urgente a debater e planear. Mas este crescimento não pode mais ser feito de forma descuidada, descurando o ambiente e o conforto de todos aqueles que a escolheram para seu retiro e, desta forma, o Município de Gaia estabeleceu um programa de Ordenamento do território que assenta numa regulamentação administrativa para ocupação do solo do concelho, determinando àreas de edificabilidade diferentes. Ou seja, assenta na distinção de dois tipos de Áreas-base: parcelas do território destinadas à consolidação e expansão urbana - áreas urbanas e áreas urbanizáveis; ou partes do território destinadas à manutenção do seu carácter agrícola, florestal ou simplesmente onde não se deseja a construção indiscriminada - áreas não urbanas de transformação condicionada e de salvaguarda.
O Município de Gaia implantou medidas para resolver os problemas de compatibilização intermunicipal e dos atravessamentos do Douro, não só com o projecto do metro com também, com aprevista reconversão do transporte ferroviário (CP) e com a negociação do Pacto Ambiental, que deverá "atacar" a questão do saneamento básico na Àrea Metropolitana.
No entanto, o maior problema do concelho resid